Mãe, o mundo tá acabando!

– Mãe, sabia que o mundo está acabando?

– Ah, tá.

– É sério, mãe!

– Tá assistindo muito filme de futuro, pro meu gosto…

– Não é, presta atenção! Nem precisa ser detetive pra saber, e eu tenho certeza que aqueles caras do Pentágono, do Taliban, já sabem disso.

– Só você mesmo!

– Mãe, se liga, você não vê jornal? É só fazer tipo lição de criancinha, ligar os pontos, um-mais-um, saca?

– Ô, menino, isso é jeito de falar com a sua mãe?

– Tá, foi mal.

– Acho bom.

– Mas, mãe, é sério. Não precisa ficar desesperada, tá? Pelas minhas contas, ainda vai demorar um pouco pra acabar de vez, vai dar tempo de você ver seus netos e tals. Só que é o seguinte: as coisas já estão acontecendo. Esses negócios do tempo, o efeito estufa, os raios ultra-violetas, sabe?, cada dia surge mais um, que nem o El Niño que agora tem uma irmã, namorada, prima, sei lá!, a tal da El Niña. Pensa: aqui não tinha nada de furacão, maremoto e até terremoto a gente já viu acontecer!

– Ah, menino, não é nada demais… As coisas mudam, ué.

– Mudam, é? O problema é que mudam sempre pra pior, mãe! Daqui a pouco vai ter tsunami aqui também. Não duvido nada que o mundo vire do avesso. Tem uns vulcões espalhados por toda parte; tá bom, são extintos, mas vulcão é tudo traiçoeiro, mãe, eles vão voltar a funcionar e sair explodindo por aí! No Brasil tem vulcão, sabia? Tem cidade!, mãe, cidade inteira que cresceu em cima de vulcão extinto, e que tá lá até hoje, com velho, criança, adulto morando lá. Vai que…

– Vira essa boca pra lá, moleque! Não tô gostando nada dessa conversa.

– Não tá gostando porque entendeu que a coisa tá feia. E tá mesmo, mãe! Até eu fico com medo, pô, e eu não sou dessas coisas, você sabe. Já reparou que todo dia descobrem uma doença nova? É que nem a vó de uma colega minha, que morreu esses dias e os médicos disseram que ela tava bem, não tinha nada! Já pensou? Hospital que era um lugar seguro agora é onde mais se pega infecção… O mundo tá acabando, mãe!

– Mas isso é coisa de gente ruim, meu filho. Gente ruim que deixa acontecer isso.

– Só que essa gente ruim é quem mora aqui na Terra comigo e com você! E essa gente ruim tem mais dinheiro que o tio Zé, mãe. Essa gente manda e desmanda em tudo o que vê pela frente.

– Com quem você tá andando na escola? Tá metido com alguma coisa, Junior?

– Tô metido com meu futuro, mãe! Pô, abre o olho! Tem vários países que guardam a bomba atômica pra quando der na telha, e aliás, um deles até já usou, lembra? E tem gente que ainda morre lá em Hiroshima por conta da radiação que grudou ali, grudou nas pessoas e não larga mais. E se o cara da Coreia pira de vez e explode aquilo tudo que ele tem guardado? A gente tá fud…

– Olha a boca, menino!

– É mentira, mãe?

– Não, mas…

– Então!

– Mas isso tudo é especulação, filho.

– Pode ser, mas não livra a gente do fim do mundo. Só que tem mais, mãe, tá achando que o franguinho que você compra na feira é saudável?

– Claro que é!

– Claro que não, mãe! Tem um monte de hormônio nele. Na sua época as menininhas da minha idade não tinham peitinhos, ou tinham?

– Mais ou menos…

– Não tinham, mãe, não tinham! Quer dizer, não que eu não goste de peitinhos, mas…

– Menino!

– É que é mutação, mãe! comida transgênica, em biologia a gente estudou isso, se bobear em alguns séculos vamos virar etês! Dá vontade de virar vegetariano, mas aí quando lembro que nem o alface escapa, cheio de agrotóxico, adubo químico… Um monte de veneno! Essas coisas é que causam câncer quando a gente fica velho, e então a gente morre porque comeu alface!

– Que exagero, Junior!

– Exagero se fosse só o alface, mãe, mas ainda tem o tomate, a beterraba, a maçã, a uva… Ainda que dá pra aliviar com esses alimentos orgânicos que tá virando moda, já viu?

– Vi, mas não sei o que são, só sei que são bem caros!

– E se você que é dona de casa não sabe o que é um alimento orgânico, mãe, quem vai saber? Tá aí o problema: as pessoas são burras!

– Junior, você tá passando dos limites! Tá me chamando de burra??

– Não, mãe! Quer dizer, na real, é meio isso…

– Olha aqui, moleque…

– Mas pera, mãe! Deixa eu terminar de falar!

– Vai ser sua última chance!

– Tá, mas me escuta, de verdade! Quando eu falo que as pessoas são burras é porque ninguém mais tá ligando pra nada, só querem saber de ter dinheiro no bolso e comida no prato. Pior é que as pessoas que querem ainda mais dinheiro no bolso não ligam a mínima pras pessoas que só querem comida no prato. E cada vez tem mais gente que só quer comida no prato e aí todo o resto fica pra depois, principalmente a natureza. Em geografia a gente aprendeu que tem coisa que é infinita e tem coisa que não é, que pode acabar e que se acabar, mãe, já era!, porque acabou, não tem mais. Tem também um esquema lá de ação e reação, que eu ainda não aprendi direito, mas é quase como castigo, manja? Isso que causa aquilo, aquilo que causa aquilo outro e assim por diante. E vai pensando que a natureza é boazinha, que vai engolir sapo da gente… Ah, mas não vai não! Aquela história dos furacões, vulcões é tipo isso, mãe. E ninguém liga.

– É, ninguém liga mesmo…

– Viu, mãe, o mundo tá acabando!

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