De Dirceu, para Marília

 

 

Minha última chance.

Sei que basta um passo em falso para tudo ir por água abaixo. Todo o esforço que fiz até então para reconquistar Marilia depende de uma gota de tinta que periga acabar meu futuro está preso em seu futuro e uma caligrafia malfeita destruirá meu sonho.

Papéis tenho aos montes, de todos os tamanhos, cores, com pauta e sem pauta, e com eles eu seria capaz até de escrever um livro inteiro, um romance dos mais shakespeariano, que alcançariam todos os primeiros lugares nas melhores livrarias. Mas depois desta derradeira palavra de que me servirão?, se nada preencherá o branco irritantemente pálido, porque nenhuma letra, símbolo, nenhum risco sequer será traçado ali.

O ponteiro do relógio me atiça e vai mais depressa a cada segundo. É uma ameaça!, sei que é, porque o medo da eminente secura da caneta prova isso. Porque ele traz a secura da minha esperança também, a secura do amor de Marília, do efêmero amor que um dia ela ameaçou sentir.

Uma única palavra é tudo – e só – o que tenho, não posso ir além. E preciso ser rápido. Mas não dá para ser rápido no amor, ele exige dedicações que eu não posso dar, que sou obrigado a roubar de mim mesmo, e ainda mentir que nunca existiram.

E tudo o que me resta é um decímetro cúbico de papel, uma palavra, uma gota de tinta maldita para trazer Marília. Preciso dizer algo a ela, algo que a convença, que a conforte e que mostre-me capaz. Bem que eu poderia ser Dirceu para que ela fosse minha Marília, e então eu não precisaria de mais nenhum adjetivo, substantivo ou qualquer verbo empoeiradamente barroco.

Uma sugestão? Uma ordem, talvez? Uma pergunta?

Não. Um pedido.

 …

– Vem?

 

 

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