Born to be

Sua primeira ideia foi João da Luz, mas já na segunda vez que pronunciou o nome, desistiu. Tinha a nítida impressão de que todos pensariam ser ele um médium, pai de santo ou coisa do gênero. E se havia algo que não lhe interessava era auto-ajuda.

Deixou de lado, então, o sobrenome da Luz e cogitou algum outro complemento que sugestionasse sabedoria, sensatez. Salomão. Salomon… Solomon. João Solomon. Mas apesar de cumprir com a função, também não se contentou com a sonoridade de rima de criança. Talvez trocando o João ficasse melhor:

Pedro Solomon. José Solomon. Antonio Solomon.

Nada. Nenhuma combinação trazia o sentimento que procurava, queria algo mais claro e que já na primeira vez bastasse para transmitir às pessoas a intensidade do seu estilo. Buscou uma inspiração entre os ídolos de suas referências, e foi só aí que notou que não havia sequer um único detalhe que relacionasse o nome com a arte. Também não se sentia bem de usufruir de seus nomes e sobrenomes, seria como um roubo!, e resolveu que não compactuaria com isso.

Olhava-se no espelho, olhava suas pilhas de escritos sobre as mesas e sentia o vazio da mente aumentar. Para ele já era difícil tentar entender como seus pais haviam conseguido escolher um nome para o batismo de uma coisinha que só se parecia era mesmo com um joelho, e pegou desapontado o velho dicionário de nomes usado há algumas décadas. Não queria um processo mecânico, sentia que contrariava seus princípios criativos ao recorrer a essa solução, mas quem sabe aumentando o repertório teria algum insight?

Astolfo. Bernardo. Chaves. Durvaldo. Esteves. Frias. Geraldo. Helton. Ivan. Juvenal. Kalil. Leite. Marques. Niomar. Osvaldo. Pires. Queiroz. Regiano. Seixas. Teotônio. Ubiratan. Vargas. Wilber. Xisto. Yuri. Zoé.

Tudo tão vago, tão perdido… Nunca pensou que passaria por uma crise existencial, tampouco que essa crise seria de seu eu literário, com alguém que nem mesmo assinaria um único documento sequer, que mal existia!

Uma pausa para o café faria com que a cabeça esfriasse, ócio criativo sussurrou entre os dentes, e assim desejou limpar as péssimas ideias que haviam surgido até ali. Pensava em algo simples, mas lúdico. Forte, mas discreto. Era assim que pretendia ser lembrado na posteridade, pois era assim que tratava suas criações.

Parecia ser o fim: o fim de sua carreira como renomado escritor. Talvez fosse apenas escritor. Ou pior: nem isso seria, e concluiu que se nem mesmo era capaz de criar um bom nome para si, também não seria capaz de dar vida a nenhuma história realmente boa. E por isso, quem sabe, é que sua pilha de projetos somente aumentava. Mas era tão fácil designar seus personagens, impregnando-lhes nomes perfeitos, como o do médico psicopata Lucius Reys, ou como a professora depressiva Angela Die.

Folheou mais uma vez o livro, como se quisesse aspirar uma solução, e que ela saltasse amedrontada das páginas, procurando o abrigo seguro de uma cabeça vazia. Melancolicamente, lembrou de quando contava histórias para os filhos de sua madrinha, nas madrugadas frias, na varanda do apartamento da praia.

E então ele nasceu: Lualdo Primus.

Apesar de estranho, amou a combinação, amou a sonoridade, amou a pegadinha. Pegou então todos os seus manuscritos e assinou, agora com orgulho, seu novo nome.

Anúncios