Crônica “Balet do Busão”, em Vida a Sete Chaves

Andar de ônibus é como dançar balet.

Ok, exageros à parte, é quase como dançar balet. Principalmente se estiver lotado. O ônibus, não o balet. E para entender essa relação, mais fácil do que explicar é vivenciar, tomando um ônibus cheio, daqueles em que nem se chega na catraca. Trem ou metrô também serve, mas certos detalhes se perderão, porque é só mesmo no bom e velho busão que vivemos momentos de outra dimensão.

E quando estiver experienciando o momento, atente-se aos detalhes: primeiro a coreografia, com direito a pontas de pé, meias-voltas, braços entendidos e pliês.  Às vezes o cobrador ainda nos orienta com os famosos passinho-pra-trás-pessoal ou ainda sobe-mais-um-faz-favor. Em seguida note como os passos são executados em movimentos cadenciados, sincronizando os corpos no balanço do chacoalho das buraqueiras das avenidas, com as curvas rápidas e fechadas, com as freadas mais fortes. Quem reparar bem vai ouvir pequenos diálogos e dependendo do roteiro do dia, um ou outro faz a intervenção docuidado-aí-motorista, e quando querem ser mais vívidos soltam a fala proibida do tá-carregando-a-mãe?, grande ápice do espetáculo.

Por último, preste atenção na troca de personagens e também no rodízio de funções, quando quem está sentado levanta, para quem está em pé, sentar, na constante renovação de personagens no pára-levanta-anda, no pára-desce-anda. A mais bela parte do show, para mim, é esta: quando no processo quase que telepático todos entendem que a pessoa X é a unica que pode ocupar o papel que vagou, e as justificativas… bem, os olhares são muito claros e cada justificativa se faz instantaneamente, de acordo com a situação: se está carregando sacolas, se chegou primeiro, se estava em pe na frente do banco… Infinitos são os motivos que nascem ali, no segundo do momento.

Os mais atentos ainda serão capazes de reparar os movimentos daqueles que estão em pé, que de maneira automática, fecham ou abrem passagem para os que, do meio do corredor, gritam o vai-descer. Piora se é uma parada de alto movimento, pois a fila de dançarinos se forma dentro do busão, como uma centopéia interminável, passando por algo que podemos chamar de corredor polonês invertido (neste momento, deixo que a imaginação de vocês, leitores, flua livremente…)

A experiência é incrível, por mais que, na maioria das vezes, os próprios passageiros não concordem com essa afirmação.Para os sociólogos, eu garanto: um prato cheio. E aos frequentadores assíduos dos trasportes coletivos, eu alerto: não tentem disfarçar!, negar ou fingir que não sabem de nada. Você já é parte integrante desse espetáculo.

** Crônica publicada originalmente em Vida a Sete Chaves **

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