Crônica “Dúvida Cruel”, em Vida a Sete Chaves

Dia desses cheguei a duas hipóteses conclusivas:

– O povo paulistano é muito feio

– Ou é muito bonito.

Eu explico: é maluca a quantidade de salões de beleza, clínicas de estética ou cabeleireiros espalhados pela cidade, em cada esquina nos deparamos com uma dessas coisas. Podemos até pensar que o mercado da estética esquentou o interesse das pessoas em abrir seus próprios negócios ou ainda a frequentá-los mais vezes, porém não chega a ser o fator motivante primário.

Questão simples do princípio básico da economia: a oferta somente será grande se a procura também for grande e só assim a coisa se justifica, porque se não houvesse frequentadores suficientes para manter esses negócios em andamento, com certeza as pessoas abririam outros tipos de comércio, como lojas de utilidades domésticas de um real, mini mercados ou shoppings centers.

Mas não: milhares de mulheres cortam, tingem, alisam esticam os cabelos todos os dias, cada uma delas tem vinte unhas para pintar, duas sobrancelhas para delinear, vários quilos a emagrecer. Os homens, por sua vez, também cortam o cabelo, barba e bigode, e cada vez mais decidem por tratamento antes considerados femininos. Afinal, todos queremos ficar bonitos. Ou queremos manter a belezura dada por Deus.

E é aí que eu fico na dúvida: somos todos tão feios assim que precisamos frequentar com tanta assiduidade as clínicas de estética para consertar os desarranjos da genética?  Ou então somos tão lindos que nos sentimos obrigados a fazer a manutenção constante dessa beleza, não admitindo um pelo que sobre aqui ou ali, um cacho fora de hora e lugar?

Numa contagem rápida e superficial, temos bem mais centros de estética do que escolas e hospitais.

Triste fim. Sou forçada a chegar numa conclusão trágica e óbvia, e por ser óbvia ela se torna ainda mais trágica: mais vale ser bonito – ou ainda um feio que tenta ser bonito –  do que ter educação ou saúde. Porque se estivéssemos preocupados em ser saudáveis, o resto seria descartável; minha vó já dizia que o importante é ter saúde. Mas se fôssemos mesmo inteligentes, não estaríamos preocupados em ser bonitos, porque, como já dizia a minha vó, o que importa é a beleza interior.

**Crônica originalmente publicada em Vida a Sete Chaves**

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