Efêmera

Adilio cismava em tomar leite no copo de whisky e sua mãe reclamava todas as vezes. Ele alegava que era o melhor copo para isso, por ser largo; a mãe, que era o pior por ser o mais fino. Adilio insistia sempre porque, secretamente, travara para a mãe a dura tarefa  de melhorar o tempo  de deslocamento da sala até a cozinha ao primeiro bater da colher na borda quando mexia o achocolatado. Ele tinha a certeza de que a mãe era capaz de quebrar o recorde dos oito segundos; e a mãe, a plena certeza de que Adilio, dia mais, dia menos, quebraria o copo de cristal.

Adilio sempre manteve vivas as disputas que inventava desde criança. Tudo começou no Natal quando escutou o avô dizendo algo sobre corrida pelo melhor presente e ainda uma eterna concorrência. Assim, sua primeira concorrência foi ver quem, dos amigos da escolinha, terminava primeiro de comer; em casa, contava quem demorava mais no banho ou quem primeiro caia no sono assistindo tevê. Conforme crescia, criava mais e mais disputas secretas, como o amigo que desse o primeiro beijo – ou a primeira foda -, quem tirava a nota mais próxima da média ou quem faltava mais sem reprovar.

Todos, sem exceção, jogavam esse grande jogo; às vezes ele mesmo participava, mas apenas para dar mais graça e para provocar e instigar o espírito competitivo dos outros competidores. Mas era da corrida de rua que mais gostava, para ver quem chegava primeiro. Onde? Adilio resolvia na hora, ali, bem no meio da rua, a definição da largada definia também o destino. Tinha problemas para concluir suas medições pelo simples motivo de que nenhuma pessoa, além dele, sabia dessas disputas, agia em segredo para que todos agissem naturalmente, sem sequer imaginarem que disputavam, porque não havia prêmios.

Não havia prêmios e Adilio nunca antes tinha reparado nisso: para quê uma competição em que nada se ganhava?, que nada se alcança?, que de nada serviria a ninguém? Quando criança tinha lá suas recompensas, como o chocolate depois do almoço, presentes cada vez mais legais e só mesmo a presença da mãe pelo medo do copo se quebrar já era uma conquista.

Lembrou das palavras do avô e lembrou ainda que jamais tinha compreendido, de fato, o que o ele quis dizer, afinal era pequeno e apenas achou graça, sem nunca perguntou o que significava tudo aquilo. Resolveu ir até o cemitério onde o avô estava enterrado há alguns anos e levou umas flores só por clichê. Parou em pé, frente à placa com o nome e as datas de nascimento e óbito do velho, fez umas comparações rápidas e concluiu: com oitenta e dois, não era o mais velho dali.

Agachou para depositar as flores no gramado e ali ficou, por dois ou três minutos, tentando entender, finalmente, o sentido de tudo aquilo e desistiu ao perceber que o momento ficara mais filosófico do que o esperado.

– Perdi, vô, perdi a corrida de entender a vida.

Levantou e virou as costas, mas, de súbito, voltou os olhos mais uma vez para a placa do avô e notou as letras miúdas, como aquelas de contrato, escondidas debaixo da poeira marrom de terra: “A vida é efêmera.”

Adilio olhou ao redor, para todas as outras placas distribuídas pela grama. Efêmera. A vida. É efêmera. Ali, Adilio compreendeu tudo.

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