Conto “Julho”, em Mix Cultural

Foto: Walter Antunes

Foto: Walter Antunes

Havia tempos que Malu não se divertia tanto.

Pudera!, era mês de Julho e todos os seus amigos – aqueles que conheceu na faculdade e no colégio, no pré e também os vizinhos da rua – a acompanhavam. Foi difícil lembrar o nome de cada um, mas aos poucos as fisionomias se traduziram em apelidos e sobrenomes. Eram tantos, todos com suas histórias, uma diferente da outra, tão diversas que Malu era incapaz de imaginá-las.

Foram então para o parque de diversões da vila, onde voltaram a ser crianças para brincarem na roda-gigante e ver o bairro todo. Era tão esquisito e tão gostoso ao mesmo tempo… Malu até lembrou que ainda tinha medo de altura, mas e daí?, estava entre amigos e isso a confortava, sentia-se capaz de ir adiante. Foi assim também que ela encarou a casa-dos-monstros e o labirinto-de-vidro, deixando de lado qualquer receio e vergonha de errar, porque queria mesmo era curtir cada segundo, cada momento! E conseguiu: riu à beça de todas as topadas que deu pensando ter encontrado a saída.

Cansados após tanta euforia, foram para o cinema, rememorar os tempos de adolescência, de fugir da escola para ficar na praça conversando. Para decidir o filme, um pouco de discussão, como de costume: terror, comédia, suspense… A decisão foi feita no dedos-iguais e alguns ficaram bem insatisfeitos de terem que assistir romance. Mas em algo concordaram: a pipoca não podia faltar, e tinha que ser sem manteiga, pra ser usada também de munição. Malu mesma sequer abriu a boca para reclamar ou concordar. Ainda estava radiante pelo reencontro tão inesperado que qualquer coisa que acontecesse seria razão para sorrir.

Ao final do filme, foram para a praça do coreto, apenas para conversar, jogar conversa fora, como gostavam de dizer quando ainda eram todos jovens.

Malu queria saber da história de cada um, queria poder guardá-las para sempre consigo porque sabia como seria difícil lembrar de todas novamente. Sofria pelos tantos os detalhes que perdera pelo caminho e que mesmo com a volta dos amigos não era possível se recordar.  Sentada na cama do hospital, pediu à filha, que reconheceu ser a mais velha, que corresse atrás de um papel e caneta, de um gravador!, se possível. Pretendia escrever tudo que o acaso havia permitido recobrar. Pena que toda a lucidez foi momentânea e acompanhou aquela moça bonita que saia do quarto.

Mais uma vez todos se foram e Malu estava sozinha novamente, olhando para fora da janela, perguntando a si mesma se já era Julho.

** Conto publicado originalmente na Coluna Verso&Foco, pelo site Mix Cultural **

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