Até que a merda te demita

A mesa de Armando ficava atrás do banheiro do escritório, de parelha com a parede. Mas isso até que não se configurava como um problema, propriamente dito. O caso é que era drywall. A bendita parede do banheiro era de drywall e ainda que fosse do modelo “duplo reforçado”, continuava sendo drywall.

Quando mudaram seu departamento para lá, na última reestruturação da empresa, Armando até que gostou do cantinho reservado e tranquilo em que haviam lhe colocado. Bastou a primeira visita para descobrir que não seria nada daquilo: seu dia-a-dia estava fadado à merda. Literalmente.

Esquivava-se o quanto podia de compartilhar da intimidade alheia e para isso passou a tomar café mais vezes,a fazer mais favores e a visitar mais a expedição. O chefe estranhou suas constantes ausências e Armando se viu obrigado a lidar com as tais visitas, nunca sabendo qual momento era pior: se o antes ou o depois.

Com o tempo acabou se acostumando com o barulho e às vezes ainda acontecia de se assustar com os mais necessitados, que chegavam às pressas, batendo a porta com rapidez e força, quase derrubando tudo sobre a mesa de Armando. Reparou que esses nunca o cumprimentavam, nem na chegada e muito menos na saída. Outros menos desesperados faziam um aceno silencioso, mas dependendo do tempo que ali permaneciam, saiam de cabeça baixa sem olhar para trás.

Armando se tornou capaz de deduzir qual havia sido o trabalho executado naquelas quatro paredes. Quando o caso era simples, coisa de rotina, normalmente recebia sempre um bom-dia e até estendiam a conversa sobre o tempo, o jogo ou o final de semana. Ele passou a reconhecer quem havia exagerado na cerveja durante o domingo, quem estava em início de gravidez e também quem tinha intestino preso. Às vezes, quando sentia o clima pesado, avisava a mocinha da limpeza para repor o papel higiênico e reforçar no desodorizador de ambiente.

Uma vez, armando estava muito concentrado na planilha e não viu quem entrou no banheiro. Pela delicadeza, achou que fosse algum estagiário para fazer o número um; alguns minutos se passaram e nada. Bom, número dois!, pensou, mas em seguida a parede esquentou e começou a tremer, gradualmente cada vez mais, sentiu uma pressão e logo depois, a descarga. Missão cumprida!, sussurrou para si mesmo em um sorriso sarcástico que lhe comia o canto da boca.

Mas o indivíduo não saiu. A cena se repetiu e quando Armando escutou a descarga novamente e o spray ao fundo, pensou que era o fim. Alarme falso e tudo recomeçou. O caso aparentava ser dos graves e na terceira vez de ritual, ele deduziu se tratar de alguma bactéria que se instalou nas paredes do intestino do pobre coitado, já tinha passado um caso desse antes, bem parecido. Também pensou em flora intestinal desregulada e excesso de carne gordurosa no dia anterior. Quando a quarta descarga se deu, Armando já estava de posse de três opções de remédios, sendo um deles fitoterápico, afinal, vai que a pessoa não é muito adepta… Anotou tudo em um papel e junto anotou o nome do gastro em que ele próprio se consultava e ao menor ruído da torneira se fechando, se levantou e foi aguardar o sofredor na porta para lhe entregar humilde e discretamente as indicações.

Assim que a maçaneta abriu, soltou:

– Olha, não precisa sofrer tanto, se você tomar uma cápsula antes de cada refeição, seu intestino vai melhorar bastante e… Doutor Tulio??

Armando ficou paralisado apenas vendo o presidente voltar para o seu andar de origem. No café, escutou que o banheiro da presidência estava em reforma e que levaria quase um mês para ser finalizado. Ele suava frio de pensar em todas as demais vezes que o doutor Tulio desceria para aliviar-se das necessidades fisiológicas e onde ele se esconderia em cada uma delas. Pensou até em pedir para a secretária avisar quando ele saísse da mesa, mas não teve coragem. Só havia uma solução.

E quando o analista de recursos humanos perguntou assustado para Armando sobre qual era o motivo do pedido de demissão, ele apenas respondeu:

– Justa causa de merda.

 

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