Conto “Contratos Noturnos”, em Coletivo Claraboia

Ilustração: Lari Tschernev

 

Ilustração:  L A R I   T S C H E R N E V

 

E então Marina fechou o acordo: quando estivesse sozinha em casa, ou ainda nas noites de muito calor, nenhum bicho-papão – ou homens-do-saco, fantasmas, bruxas e monstros em geral – poderia vir assustá-la. Porque não é justo, ora essa!, argumentava a menina. Afinal, ela precisava ter o direito à defesa e sem pai, mãe ou um cobertor, não era mesmo justo. E também porque ela não saía por aí deixando todas as luzes da casa acesas! Respeitava os monstros e queria, da mesma maneira, ser respeitada por eles.

Por isso o acordo ainda previa que a contagem regressiva apenas começaria quando Marina sentasse na cama para apagar o abajur. O seu quarto ficava muito escuro à noite e já havia acontecido dela bater com o dedinho no pé da escrivaninha e quase não dormiu de tanta dor. Era por isso, então, que a disputa começaria do abajur: eles prometiam esperar e ela prometia não correr para se cobrir. Ah, é: o rosto não estava entre as partes liberadas para os monstros. Pé, mão, costas, barriga, perna, bumbum, todos os outros sim, mas o rosto, não! Ou então como vou respirar? Os monstros estão lá para me assustarem, e não para me sufocarem!, indignava-se Marina.

Eram condições muito pertinentes e a menina sentia que não estava sendo tirana. Sempre concordara que meias e pantufas eram instrumentos ilícitos, sendo banidos como meios de defesa. Da mesma forma tinha aceitado que o interruptor do abajur deveria ficar do outro lado do criado-mudo. O que é certo, é certo!, e combinado não é caro!, repetia orgulhosa as palavras que, por várias vezes, escutara do pai e da mãe. Apesar de não saber exatamente o que significavam, como sempre eram ditas por adultos e falavam de justiça, pareciam fazer algum sentido.

Marina jamais contara seus acordos para ninguém, guardou para si o contrato, debaixo de sete chaves, somente entre ela e os monstros. Nem mesmo para Julia, sua melhor-amiga-boneca, mas só porque ela não acreditava nessas coisas de bicho-papão e detestava ser assustada. Do irmão mais velho, Pedro, escutou uma vez que eles não existiam, que tudo não passava de invenção dos adultos pra botar medo em criança. Pura bobagem!, pensou Marina, inocência dele!, porque ela sabia muito bem que isso era mentira, que existiam vários deles, ela mesma já tinha visto vários, inclusive no próprio quarto do irmão.

Certeza que eles existem, sussurrava Marina para si mesma. Todas as noites ela deixava uma balinha de goma no pé da soleira da porta de seu quarto. Sua maior alegria era, ao acordar pela manhã no dia seguinte, não encontrar o doce no chão.

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