Carta a um pai comunista

Dia desses lembrei de você. Enquanto eu lia de dentro do ônibus as manchetes principais de um jornal pendurado na banca, quase pude ouvir sua voz naquele discurso velho e insistente. Era fácil deduzir qual seria a ordem de suas palavras e também a frase com que você fecharia toda sua pausada explanação. Demorei a perceber que em meus lábios havia surgido um sorriso sincero, um pouco sarcástico, sobretudo contido. Fingi para mim mesma que tudo não passava de uma lembrança reavivada pela saudade, afinal, fazia algum tempo que não nos víamos. Peguei o fone de ouvidos, acessei no celular a pasta com os arquivo de músicas e apertei a opção do randômico, para não cair na tentação de te contrariar – menos ainda de te apoiar -, e tudo soaria como uma estranha coincidência se eu não entendesse de física quântica, porque uma voz bem conhecida nossa então cantou que “amanhã vai ser outro dia” e isso fez com que mais uma vez eu me traísse quando não reparei ter aumentado meu tom de voz para cantar o refrão. Durante todo o caminho para casa novas lembranças vieram e me fizeram admitir tudo o que eu menos queria: que eu era igual a você, que seus defeitos estavam em mim, que suas qualidades estavam em mim, que seus conceitos e princípios me rondavam dia e noite. Desesperadamente, procurei um jeito de negar tudo isso, de dizer não à você e ao fato de que sou fruto do seu medo e também do seu amor. Mas era tarde demais: eu já amava os seus ideais e era como se fossem meus, genuinamente meus; eu já brigava por eles, com unhas e dentes, acreditava na utopia da felicidade e isso tudo fazia parte de mim. Eu fui engolindo meu orgulho pouco a pouco, mastigando as lições e os erros, reconhecendo os diversos sabores da vida e distinguindo o que havia sido escolha minha do que havia sido imposição sua. Não sobrou quase nada seu. Ao mesmo tempo, tudo o que havia era seu. E por conta da saudade, não pude conter a lágrima que nasceu, rolou e morreu em meu rosto.

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