Crônica “Não é mais do mesmo”, em Vida a Sete Chaves

Então era isso que a dona Dilma tinha para falar. E pelo que se pode perceber pelas redes sociais, o povo não curtiu nem um pouquinho o que ela disse para toda a nação. Estão comentando por aí que o discurso não trouxe nada de novo, que a gente já sabia tudo isso de cor, blablabá. Será mesmo?

Por que, pensando bem – e lendo o discurso com bastante atenção –, ela disse, sim!, muita coisa. Brasileiras e brasileiros que a ouviam estavam banhados de pré-conceitos, predispostos a não gostar do que ouviriam e sequer se deram conta do que, no fundo, foi dito. A coisa é bem diferente e não se trata de mais do mesmo.

Note que logo no comecinho, ela tratou as manifestações populares como “uma nova energia política”, e talvez a pessoa que elaborou o texto não informou à presidente1 o peso que isso, na realidade, tem. Porque se existe uma nova energia política, existe também uma nova situação política, em que as condições são diferentes das anteriores e, portanto, passíveis de remodelagem. Ué, não é justamente isso que a gente queria? Não é esse um dos motivos pelo qual saímos às ruas? Já temos a fome, mas nos falta ainda a faca, o queijo e a vontade de comer.

Mais adiante ela confirma algo de que a gente só percebeu recentemente: que a união do povo tem força – e muita! – e que será dessa forma que conseguiremos atingir os nossos objetivos enquanto cidadãos. Ou ninguém escutou a dona Dilma dizendo que “temos que aproveitar o vigor das manifestações para produzir mais mudanças”? Por um acaso, alguém prestou atenção no mais que apareceu nessa frase? De todos os que estiveram clamando por um país melhor, será que um de vocês, ao menos um!, entendeu o que essa palavra pode vir a significar? Pois foi assim que ela nos entregou de bandeja o poder de produzir essas tais mudanças. Ou seja, ganhamos a faca.

Em seguida, nossa presidente comunica que vai “receber os líderes de manifestações pacíficas, os representantes das organizações de jovens, […] associações populares”. Partindo disso eu pergunto: quem serão os próximos a reivindicar? Qual o próximo objetivo a alcançar? Qual será o próximo movimento popular que levará milhares de pessoas às ruas para lutar por melhores condições de vida, por educação, saúde? Porque, notem, foi exatamente isso que ela mesma nos disse!, que receberá o povo brasileiro, que ouvirá nossas queixas e propostas. Os mais acomodados dirão que é inocência minha acreditar que haverá esse diálogo, mas eu digo que é burrice de cada um de nós que não usar as palavras dela a nosso favor! Imaginem milhões de pessoas, na frente do Palácio dos Bandeirantes gritando, urrando que ela nos ouça como prometeu. Garanto: ela não terá condições de voltar atrás no que disse em rede nacional. E com isso nos tornamos detentores da fome, da faca e agora, também, da vontade de comer.

Tudo o que nos faltaria, então, seria o queijo, mas a dona Dilma o ofereceu momentos depois quando admitiu por duas vezes que o cidadão é a peça mais importante de todo esse jogo. Foi dito com todas as letras que é a cidadania […] quem deve ser ouvido em primeiro lugar e, pasmem!, a presidente disse, também, que existe a necessidade de se fazer um esforço para que “o cidadão tenha mecanismos de controle mais abrangentes sobre os seus representantes”. Ela jogou na nossa cara, assim, sem dó nem piedade, bem escancarado, que nós não cobramos o que nos prometeram, que somos um bando de conformados-acomodados – não necessariamente nessa mesma ordem.

E aí pareceu que o queijo estava meio azedo, ruim de engolir, só porque ela falou que os royalties do petróleo seriam aplicados na educação, ou ainda sobre a importância da copa do mundo2 para o Brasil. Soa esquisito, é verdade, se a gente estiver focado somente no umbigo da população; mas faz um pouco de sentido quando se amplia o olhar para enxergar o horizonte, porque essa é a função primária da dona Dilma, que, na posição de presidente, precisa olhar para a coisa como um todo. Mas ficou um gostinho de azedo porque o tom do discurso foi realista, e como estamos todos vivendo de emoção, ninguém quis tentar entender.

Não, não apoio o governo e repito: não apoio o governo! Também não estou contra, não me enquandro em direita, ou esquerda, tampouco estou em cima do muro. Estou é no meio do povo, querendo mostrar a todos que já conseguimos mudar algumas coisas e ainda que tudo isso se resuma no discurso do poder executivo de nosso país, foi o primeiro passo. Como um bebê, estamos engatinhando, para depois ficar em pé e, por último, correr.

A chance está aí, nas nossas mãos. A presidente confirmou que juntamos a fome com a vontade de comer, e assumiu que estamos com a faca e o queijo na mão. Agora é que entra o slogan: depende de nós.

Mas se a gente achar que fizemos a revolução só porque fomos às ruas, não seremos mais do que uma questão de cinco alternativas do quesito Atualidades dos vestibulares dos próximos anos. Apenas teremos mudado a história desse país se nos movimentarmos cada vez mais, com objetivos cada vez mais profundos e direcionados, inundados de clareza e discernimento. Quem vive de Facebook é o Zuckerberg; o Brasil vive dos seus brasileiros. Se o gigante acordou de verdade, é hora de pensar no próximo passo.

Acesse aqui o link para o discurso completo.

Pequenos e rápidos pareceres gramaticais:

1. Terminantemente, me recuso a infringir a língua portuguesa dizendo presidenta.

2. Meu conceito de copa do mundo me impede de imputar-lhe a letra maiúscula.

 

** Crônica publicada originalmente no site Vida a Sete Chaves**

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