Conto “Chão de primavera”, em Mix Cultural

Foto: Nay Santos

Foto: Nay Santos

A casa não tinha nada de engraçada, apesar de não ser, assim, tão diferente do que se dizia na cantiga cantada na escola do vilarejo: tetos, paredes, janela e porta havia, e dentro dela apenas um velho banco e um colchão improvisado, feito de palha seca, coberto por um tecido laranja encardido, sobra de uma festa de São Brás.

Não valia quase nada, a casa. As ripas de madeira já estavam corroídas, infestadas de cupim e teias de aranha por todos os cantos. Há anos que ninguém entrava ali, a não ser as galinhas em busca de escorpiões. E não entravam não era por medo, mas por respeito a tudo o que aquela casa um dia representou, por toda a história que carregava dentro de si.

Em seu primeiro dia de solidão, muitas flores foram deixadas ao seu redor, dezenas de velas acesas iluminaram as sete noites que se seguiram e nem mesmo o vento se atrevera a apagá-las. Com o passar do tempo as visitas diminuíram e a casa ficou sozinha, com exceção apenas de uma ou outra vez que recebeu singelas limpezas de vassoura, mas essa devoção também logo se desfez e então só restaram as lembranças.

Sim, ficaram as histórias das muitas festas, das danças, dos cortejos para São Benedito, São Lázaro e São Jorge, e ainda as tardes das rezadeiras e seus terços, os domingos de ramos, e as benzedeiras e suas águas-benta para curar febre e afastar mau-olhado. Não bastasse a solidão, o silêncio se instalou e acabou tomando conta de tudo.

Mas durante cada setembro o vilarejo recobrava um pouco de sua alegria quando as duas primaveras montavam no chão do terreiro um tapete laranja com as flores que haviam brotado. Era quase possível ver, novamente, dona Nena sentada em seu banco à porta da casa.

** Conto originalmente publicado no site Mix Cultural **

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