Sim, existe poesia em SP

Há alguns anos eu elaborei uma oficina de poesia. E apesar do gênero poesia não ser, exatamente, o meu forte, a ideia me pareceu boa e eu decidi levá-la adiante. E me pareceu boa porque ela mexe com o sentimento dos moradores de uma metrópole caótica, que é nada mais, nada menos, que São Paulo. O objetivo dessa minha proposta é estimular a visão poética, é enxergar a poesia nas coisas mais simples, bobas e apoéticas, quando isoladas de um contexto, como o trânsito, o desmatamento, a poluição, e por aí vai. A diferença está justamente nesse ponto: as coisas nunca estão fora de contexto… De fora, não é mesmo nada de simpático ou bonito em nada disso. Mas se nos atentarmos aos detalhes, aos pormenores que circundam essas situações, se mudarmos o ponto de vista, vamos achar poesia. Porque é aí que a poesia mora. Porque é aí que a esperança mora.

Enviei esse projeto para uns três ou quatro editais públicos diferentes e ele nunca foi aprovado. E eu fico triste. Não pela não-aprovação do meu projeto, mas pelo que está por trás disso. Fico triste é pela resposta negativa que a poesia recebe, que a própria cidade recebe pela não-chance de encontrar beleza, melodia e esperança em si mesma. É como se as pessoas não quisessem dar voz à poética da vida conturbada na capital, como se somente os campos, as montanhas, os mares, sertões e casinhas de sapê fossem dignos de receberem poesias. É como se a a cidade não tivesse, mesmo, cores. E então o que fazer com as gotas de chuva que se enroscam e se namoram nos vidros dos ônibus? O que fazer com a sombra dos arranha-céus que dançam nas ruas ao amanhecer? O que fazer com todas as luzes que escorrem do céu estrelado para as avenidas?

Sim, eu acredito que existe amor em São Paulo. Também acredito que existam cores, vidas, sonhos, desejos… Eu não vou desistir de tentar fazer dessa vida amarga, um pouco mais doce; dos dias tristes, mais felizes; do cimento frio e duro, mais aconchegante.

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