Pausa para um café

E tantas coisas haviam de mais importantes a ser pensadas naquele momento que não era possível dedicar toda a atenção necessária às planilhas ou aos demonstrativos, menos ainda pensar com clareza nas decisões que exigiam de Jorge naquela reunião. O namoradinho da filha caçula, a faculdade da mais velha. E isso tudo depois da mulher ter ido embora, assim, sem mais nem menos.

Havia optado por não contar a ninguém; conversara com as meninas e se decidiram pelo silêncio, fingindo que nada havia acontecido, como se nunca tivesse existido alguém na função de mãe e esposa. Todas as roupas e pertences haviam sido doados, e desse jeito alimentavam a ilusão de que tudo acabaria bem.

Ledo engano. Para Jorge, as tarefas tinham triplicado e ainda que as meninas o ajudassem com os afazeres domésticos, a pior parte ficava com ele: pensar, programar, prover, arrumar, levar, trazer, trabalhar. O mais difícil estava sendo trabalhar. Andava agora com dois caderninhos, um para a função de diretor e o outro para a função dono-de-casa. Sua cabeça não saia deste segundo.

Os slides passavam tão rápidos quanto os minutos do relógio e o segundo caderninho permanecia vazio, preenchido apenas com a data do dia e o tema da reunião. Precisava voltar a mente para o que estavam dizendo ali, ao final deveria dar um parecer, definiria o destino da empresa naquela decisão. Olhava a projeção e era como um filme em branco passando à sua frente.

– Pausa para um café!, anunciou.

E ninguém entendeu o motivo de Jorge ter pedido essa pausa bem no ápice da reunião, mas somente o gerente de projetos teve a coragem de perguntar:

– Justamente por ser a parte mais importante é que quero todos despertos!, mentiu.

Sua esperança, no fundo, era de que ele mesmo acordasse, que um café bem preto e quente pudesse reativar seus neurônios e o trouxesse de volta à realidade. Circulou por entre os funcionários, escutou um comentário aqui e ali, e tentou formular uma pergunta cuja resposta pudesse resumir tudo o que havia sido dito.

Ao voltarem para a sala, os responsáveis do projeto retornaram a apresentação em alguns slides, apenas para que o fluxo de raciocínio pudesse correr, desta vez, por completo. E mesmo assim, Jorge não conseguia se concentrar. Lembrava da lista do mercado, da lista dos livros didáticos, da viagem de formatura. Em sua crise de desespero, levantou-se e apontou para Frederico, o superintendente de coordenação.

– Meu caro Fred! Em vista da proposição deste projeto – e das mudanças que ele acarretará em nossa empresa – e sabendo das tuas convicções, as quais eu sempre endosso, imagino que mais uma vez compartilhemos de uma mesma opinião. Gostaria de nos dar seu parecer sobre essa possível implantação?

– De forma alguma! Essa palavra não poderia vir de ninguém mais do que você, Jorginho!

Com o coração em pedra de gelo e um sorriso forçado, Jorge desejou, profunda e silenciosamente, que Fred se dirigisse à puta-que-o-pariu, apesar de querer desejar outro tipo de coisa para o canalha traidor, um bocado mais pesada. Tentando esconder seu nervosismo e ainda ganhar um pouco de tempo, Jorge então se voltou para a maldita apresentação, observou o slide por alguns minutos e disse:

– Vamos fazer uma pausa para o café.

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