Médico de estrela

Ilustração: Lari Tschernev

Ilustração: Lari Tschernev

A casa da tia Jurema nem parecia um lugar para crianças. Mas Rafa pensava que isso era só porque ela morava no centro da cidade e não tinha marido nem filhos com quem se pudesse brincar. Na verdade, ele até duvidava que haveriam outras crianças no bairro, mas ainda assim gostava de passar suas férias de meio de ano por lá, e sempre acabava se arranjando em suas próprias diversões.

Onde tia Jurema vivia não era nem bonito, nem feio; era esquisito e velho, as ruas eram rodeadas de prédios cinza. Todos os dias pela manhã um homem descia a rua vendendo pamonhas. Enquanto ele propagandeava seu produto aos berros, um radinho de pilha cantarolava umas músicas antigas. A parada do homem bem embaixo à janela quase obrigava tia Jurema a comprar um doce para o sobrinho, ainda que ela mesma não gostasse muito do quitute: dizia que tinha um gosto esquisito de sabonete e um cheiro de pum que grudava nas mãos. Mas a tia, religiosamente, descia até o portão com o dinheiro exato pra comprar uma trouxinha do tal creme de milho.

A casa era, de fato, muito velha: paredes de tinta descascadas, tacos descolados que faziam qualquer um tropeçar e cair, portas que rangiam e estalavam o dia inteiro. E eram esses detalhes que, na cabeça de Rafa, faziam toda a diferença. No interior, ele não tinha nada disso, as coisas estavam sempre no lugar certo e dali não poderiam sair, nada podia se transformar em brinquedo – e tudo acontecia exatamente o oposto na casa da tia Jurema.

Um dia, dentro das suas brincadeiras inventadas, Rafa resolveu inventar que seria o médico das paredes: olhou os buracos – que chamou de feridas – e as infiltrações – que chamou de alergias. Encontrou uma escondida atrás da cortina da janela do quarto em que costumava dormir e então se armou com seus pertences médicos: chave de fenda e borrifador de água. Cutuca daqui, mexe de lá, abre a ferida dali… Mas estava difícil de enxergar lá dentro. Pensou, pensou e lembrou da lanterna que ficava embaixo da cama.

Com a lanterna posicionada sobre os ombros, Rafa iluminou o tal buraco, foi mexendo, cutucando a parede e pensando no que poderia encontrar. De tão entretido, nem percebeu que tinha atravessado a parede toda! Com a luz da lanterna pode examinar melhor o pequeno furo; borrifou água, limpou a poeira e viu que a parede, enfim, estava livre de um de seus problemas. Paciente curada, acabou a brincadeira: ele se cansou de ser médico, desistiu e foi embora do seu “consultório”.

Mas uma coisa tinha deixado Rafa encafifado. Enquanto olhava para a parede, seus olhos escaparam uma ou duas vezes do foco, atravessou buraco afora e chegou no céu; ele voltou para o quarto, sentou no chão e percebeu que era bonito ter um pingo azul no meio de uma parede enorme, branca e velha: através dele, o menino conseguia ver pássaros que

voavam em bandos ou sozinhos, aviões que passavam aos montes e até mesmo algumas pipas ao longe – e isso lhe deu esperança de encontrar outras crianças por ali.

Explorou todos os detalhes da rua e do céu de todos os ângulos e jeitos. Bem que Rafa se sentiu um verdadeiro astronauta!, que só enxerga as coisas de longe – as cosias do céu. O dia passou, mas ele nem percebeu. Quando tia Jurema chegou do serviço, fez a maior barulheira ao deixar cairem as sacolas do mercado, e nem sinal do menino. Estranhando o silêncio em casa, foi até o quarto em que Rafa se hospedava e viu um monte de folhas desenhadas pelo chão, sobre a cama e a escrivanha e o menino, de costas para a porta, com a cara colada na parede. Saiu sem fazer barulho, não queria atrapalhar o menino em sua concentração esquisita. Esperou um momento em que Rafa estivesse novamente desenhando para chamá-lo para a janta. Conversaram, comeram, cada um contou o seu dia e tia Jurema se segurou para não dar bronca pelo buraco na parede, porque ficou mais feliz pela alegria do sobrinho.

– Sou um médico de estrelas, tia!

– Astrônomo, Rafa, você é um pequeno astrônomo.

O menino comeu, deu um beijo na tia e saiu correndo de volta ao seu observatório. Já era noite e ele se encantou com o que viu: uma, duas, três, muitas estrelas! Agora ele era um astronauta, e como todo bom astronauta decidiu fazer um mapa do céu estrelado. Olhava uma por vez, observava todos os detalhes, o tamanho do brilho, a distância entre elas e… puxa!, era uma tarefa muito grande. Ao final das férias na casa da tia Jurema, Rafa tinha folhas e folhas grudadas uma na outra, montando uma grande reprodução do céu. No último dia, tia e sobrinho decidiram fazer do quarto em que Rafa usava de um grande laboratório de astronomia: colaram as folhas na parede e combinaram que a cada ano, o menino atualizaria o mapa, estrela por estrela.

Anos depois, quando tia Jurema se foi, Rafa voltou à casa dela, mas agora como o famoso astrônomo Dr Rafael Braga Torres. Ao entrar no quarto, viu a parede de folhas amareladas, com as marcações de cada uma das estrelas do céu. Olhou pelo buraco, como não fazia há anos, respirou fundo, e uma lágrima escorreu de seus olhos. Ele se levantou, foi até o grande mapa e desenhou uma última estrela, bem no centro. Secando a uma outra lágrima, ele escreveu: tia Jurema.

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