Crônica “No dia de todos os dias”, em Vida a Sete Chaves

Na última quinta-feira dizem que foi o dia do escritor. Vinte e cinco de julho é o dia do escritor. E isso significa que… que… Bem, isso não significa nada, na verdade, porque também não serve de nada além do que uma singela movimentação do comércio. Isso, claro, no caso de escritores, que são lembrados apenas na sessão de autógrafos e na lista dos mais vendidos da Veja. Mas tudo é diferente quando se fala do dia das mães, dos namorados, das crianças e por aí vai. Feliz do comerciário, que lucra seja lá qual for o seu comércio: loja, restaurante, estacionamento, delivery… São esses os dias que salvam o faturamento do trimestre!, e não é a toa que eles acontecem periodicamente: maio, agosto, outubro, dezembro. E esses dias de todas as coisas foram criados deliberadamente, e a cada dia tem mais um. É um tal de dia do empacotador, dia do alfaiate de ternos, dia do cortador de grama. Tem também o dia do trabalho – que é feriado, e ninguém trabalha, o que se torna uma situação um tanto quanto contraditória. E aí inventaram também os dias religiosos: como São Venceslau do Brás, da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e pra não correr o risco de esquecer ninguém e pra poder incluir também os novatos, inventaram até o dia de todos os santos. Afinal, tá sempre chegando mais gente…

Mas é uma pena que esses ditos dias especiais sejam tratados como motivo para vender mais, porque poderia ser é um motivo para muitas coisas bem mais legais. Por cima, podemos pensar em movimentos de classe, ou mesmo em eventos voltados para a comemoração, discussão, encontros, festas, que seja!, a imaginação tem o céu como limite. Mas não é nada disso.

Também não vou dizer que não gosto de receber os parabéns. Aliás, eu até cobro: cobro abraços, cobro beijos e atenção. Cobro o carinho, a consideração, cobro o reconhecimento do meu esforço, trabalho e dedicação. Porque isso é o que importa e essa é a primeira coisa da qual as pessoas esquecem.

Então eu cobro e hipocritamente comemoro feliz os dias que me dizem respeito.

Crônica publicada originalmente em Vida a Sete Chaves.

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