O amor que voltará

Os muitos porta-retratos na parede não a deixavam esquecer.

Esquecer que havia um passado e que este passado estava ainda mais presente, até quando penteava o cabelo ou escovava os dentes, num fluxo contínuo e lento. O reflexo do espelho, a boca espumada, os olhos inchados, tudo lembrava que a cama estivera fria na noite anterior. Não sairia pelas ruas para procurá-la, contrariaria seu maior desejo, porque sabia não ter o direito de quebrar a distância que haviam criado com tanto sofrimento. Parecia definitivo. Não recebeu nenhuma ligação dela nos últimos seis dias, nenhuma mensagem de e-mail, nenhum recado na secretária eletrônica, nada. E isso era um silêncio torturante, queimava-lhe o coração em ânsia e saudade. Tudo o que tinha era a certeza do fim. E por essa certeza, decidiu partir para a canalhisse e botou para rodar um devedê meloso e se enfiou debaixo das cobertas; ela cantava e chorava até soluçar, chorava e cantava a música mais dolorida do repertório, exagerando na imitação da frase “…pegue o vestido estampado…”. Adormeceu sem nem mesmo saber como. No dia seguinte a dor não estava mais lá, e a cama havia esquentado novamente.

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