Crônica “Escravotech”, em Vida a Sete Chaves

Hoje, ao sair de casa logo pela manhã, por conta da pressa, não me dei conta de que havia deixado o celular sobre a mesa. Assim que entrei no ônibus, fui procurá-lo como de costume para ver as horas e, num primeiro momento, me senti nua, abandonada, perdida, esquecida pelo mundo!

Fiquei pensando em quão trágico seria esse dia, em que eu estaria sem a possibilidade de me contatar com ninguém, sem ver e-mails, internet, facebook ou até os joguinhos para distração. Por sorte, eu estava com um livro recém-comprado na bolsa, pelo qual eu ansiava a oportunidade de ler.

Para que eu não ficasse pensando em todas as coisas que poderiam acontecer – não ter crédito no bilhete único, ser assaltada ou ainda atropelada – e que eu não teria nenhuma ligação com o mundo para poder me proteger, abri o tal livro na primeira página e engatei na leitura.

E foi essa a melhor coisa que pode me acontecer. Mais do que a viagem do ônibus, eu viajei na história, esqueci dos problemas reais – e também dos fictícios – e não me importei se alguém estava tentando falar comigo pelo celular que estava em casa, sobre a mesa. Pude aproveitar as cores da rua e as pessoas ao meu redor. Senti uma liberdade tão boa que há tempos eu não sentia, pois até mesmo quando ia à praia levava o bendito a tiracolo.

Que é necessário ter o mínimo de conexão com o mundo tecnológico, é verdade. Outrra coisa, porém, é nos tornarmos escravos por livre e espontânea decisão e escolha. Não é a toa que as pessoas estão, cada vez mais, reclamando que não há tempo para isso ou para aquilo. Estamos todos muito preocupados em nos conectar virtualmente que já não temos mais tempo para nos conectar pessoalmente.

Ficou para mim o desafio, que eu estendo aos amigos leitores: esqueçam celulares, relógios, tablets e afins em casa com mais frequência. Vivam a vida. Eu recomendo.

Crônica publicada originalmente no blog literário Vida a Sete Chaves.

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