Crônica “Da perda de um amigo”, em Vida a Sete Chaves

Quando a gente perde uma pessoa a quem chamamos de amigo, com ela vão embora muitas outras coisas das quais somente nos damos conta muito tempo depois. E quando isso acontece, descobrimos que ele nunca mais voltará e então a tristeza se torna muito grande, a gente chora por qualquer coisa e todas as lembranças voltam o tempo todo porque a saudade é muito forte. Sabemos não ser mais possível ouvir a sua voz, rir ou chorar em seu ombro e apesar disso a gente fica feliz porque sabe que, de alguma forma, esavamos unidos pelo laço de uma amizade sincera e gratuita até para depois da vida; toda história se fortalece, como se tudo tivesse acontecido ontem mesmo, de tão próximo que a gente fica.

Mas mais difícil do que perder um amigo para a consequência inevitável da vida – que é a morte – é perder um amigo enquanto ele ainda está vivinho da silva. E por mais incrível que pareça, são coisas bem diferentes. E perder um amigo enquanto ainda é possível revê-lo, é bem mais triste porque essa é uma perda provocada por nós mesmos por, talvez, não termos sido especialmente cuidadosos com quem considerávamos quase um irmão. Não se trata de uma perda irreparável – como a morte do corpo -, mas da triste perda consentida e assistida – que é a morte da alma. E essa é ainda mais dolorida porque depende s[o de nós para mudar. Ou entao a cada vez que cruzarmos com ele, que ouvirmos a sua voz, que o sentirmos por perto, é como se um ácido chamado orgulho vao corroer nosso peito pouco a pouco, vai destruir nossa alegria e nada será tão colorido como foi um dia.

Perder um amigo é perder as madrugadas de gargalhadas, as corridas no shoppings, as disputas de pizza e as brincadeiras no supermercado; é olhar para trás e saber que eram felizes de verdade, é sentir falta do carinho que existia e que – esse assim – morreu. É perder uma vida inteira, mas não uma vida que já se foi, mas uma vida que ainda se tem viva.

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