Conto “Bate outra vez…”, em Mix Cultural

 

Carolina Menezes

Carolina Menezes

 

Eu estava à sua espera, como um leão faminto à espreita da presa, como o beija-flor anseia pelas cores e o nectar daquela que lhe mata a fome e que lhe garante a vida. Tremia pela simples ideia de encontrá-lo mais uma vez, pelo calor que emanaria de seus poros e chegaria até minha pele, enrubrecendo meu rosto e enrijecendo meus pelos, todos os meus pelos. E eu tremia por dentro, de raiva porque seus olhos não mais brilhavam na minha direção, porque já não eram mais os meus braços que sentiam sua força, não era mais o meu corpo que suava embaixo do seu. Eu sabia que não seria capaz de resistir, de aceitar que seus sonhos virassem as costas para os meus, não poderia permitir que você se fosse para sempre, sem mim.

Mas quando você chegou, tudo foi diferente. Não fui um leão, nem um beija-flor. Fui mulher, homem, criança e velho, aquietei meu coração pulsante, desesperadoramente pulsante diante da sua alma pura, vazia e frágil. Coitada, era tão mais frágil do que eu pensava que fosse, que até mesmo me assustei quando me dei conta do poder que eu tinha em mãos. Não pude me conter, eu queria você de volta, queria a certeza de que o coração também pulsaria, mas por mim!, somente por mim.

Então fui fundo, entrei no seu peito, com minhas mãos abri sua carne, seus ossos e o arranquei com cuidado, não queria te machucar. Ele batia, ainda forte para te manter vivo, mas enfraquecendo e eu sabia que agora era de amor porque você chorava e essas lágrimas eram para mim. O amor dói, eu conclui, porque havia doído em mim e agora dopia em você.

– O amor dói, meu bem, mas não se preocupe, a dor passará.

E passou.

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