Crônica “O que sai do coração”, em Vida a Sete Chaves

Hoje é dia de tema polêmico.

Porque ontem foi dia de pré-faxina e resolvi que muitas roupas e coisas seriam doadas para quem está precisando. Mas se tem uma coisa que sempre me pegou fundo é a péssima mania que temos de separar apenas aquilo que não nos serve mais. E então eu me perguntava: se não serve pra mim, por que haveria de servir para outra pessoa?

A resposta, na verdade, é bem mais simples do que se imagina: não serve.

É, não serve. Não serve e não é pela utilidade física da coisa em si, mas não serve pela maneira como a destinamos: geralmente são roupas velhas, rotas ou rasgadas, que estão apenas ocupando o lugar da roupa nova que será comprada no shopping no próximo final de semana. Não, isso definitivamente não é doação.

Por princípio, doações são compostas mais do que está no coração do que nas atitudes, pois quando doamos algo é por saber e se comover com a necessidade de um outro alguém e se propor a supri-la parcial ou completamente. E independe se o suprimento será com alimentos, roupas ou mesmo com um singelo e profundo abraço. O que importa é que veio com verdade e disposição.

Então, nessa minha pré-faxina, decidi que doaria aquilo que ainda servisse para mim, mas que eu não estivesse dando o devido valor, ou então o que estivesse em excesso para mim e faltando para outro. Porque, sim!, a calça “x” estava ocupando um lugar no meu guarda-roupa, quando, no fundo, merecia ocupar um lugar em outro guarda-roupa.

E quando penso nos grandes nomes da história que lutaram pelo bem-estar de outras pessoas chego à conclusão de que era por estarem muito bem consigo mesmos e desejarem dividir tudo isso com seus pares. Por que, eu me pergunto, de que vale eu estar feliz sozinha, se todos ao meu redor estão tristes? Sou adepta do comunismo enquanto prática de governo, mas também sou adepta do comunismo enquanto princípio de sociedade, onde o bem-comum é o melhor estado de espírito, onde todos são felizes ao mesmo tempo.

Isso, para mim, seria um verdadeiro milagre.

Talvez tenha sido por isso que, mesmo tendo separado duas sacolas grandes, cheias de roupas em ótimo estado, meu guarda-roupa continue lotado, estrumbado de roupas – essas sim! – que eu uso…

** Publicado em 09/11/13 originalmente em Vida a Sete Chaves. Acesse outros posts clicando aqui **

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