Crõnica “Justiça, pra quê te quero?”, em Vida a Sete Chaves

Fico encantada com a capacidade que os serviços públicos tem de, por princípio, funcionar às avessas. E pior: fazer parte de algum órgão ou serviço público – ou ainda somente participar de determinadas situações regulamentadas e gerenciadas por eles – nos permite enxergar o quão defasada é a sanidade mental desses órgãos regulamentadores.

E digo isso por experiência própria, pois há alguns anos que sou convocada para compor a banca de juri popular no Tribunal de Justiça da Capital. Ou seja, vou lá, fico à disposição pra dar pitacos na vida alheia, sem nem mesmo ter noções de direito penal, e tudo isso pra dizer que sou instrumento da justiça nesse país.

E que me perdoem os envolvidos, mas a situação é simplesmente patética.

Vejam vocês que sou obrigada a comparecer, passiva de pena de multa em caso de ausência injustificada, e eu pergunto: pra quê? Mas também respondo: pra ficar mofando na cadeira, esperando por mais de duas horas a boa vontade do juiz – e às vezes é só e tão somente a oficial de justiça – de nos avisar que o julgamento será cancelado.

O motivo? Bem, já passei por vário, posso listá-los:

– A vítima não foi comunicada;

– As testemunhas não foram ouvidas;

– O promotor ainda está em um caso que se estendeu;

– O réu não apareceu.

Um consolo é que, neste último caso, o tratante teve a prisão preventiva decretada e passou a ser tratado como foragido da polícia.

Ha. Ha. Ha.

Parece piada, de tão patético. É um descaso sem tamanho com as pessoas envolvidas no processo, que já sofrem por terem perdido entes (por que juri popular, meu caros, é coisa “leve”, “sussa”, só homicídio e tentativa de homicídio), conosco, que nos dispomos a colaborar como parte da sociedade que decide por si mesma seu futuro e de seus integrantes.

Mas é aí que a gente se dá conta de que não há nada pior do que depender de um sistema falido; que não há nada pior do que não ser capaz de mudar uma vírgula desse próprio sistema; nada pior do que fazer parte do sistema que deveria fazer justiça e quem, em vez disso, apenas enrola, enrola, enrola…

Triste saber que esse relato foi escrito quando o julgamento já estava com atraso de mais de hora.

** Publicado em 23/11/13 originalmente em Vida a Sete Chaves. Acesse outros posts clicando aqui **

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