Crônica “Muletas”, em Vida a Sete Chaves

Tenho notado o quanto as pessoas se apoiam em muletas desnecessárias.

Uma delas: os verbos de apoio. É, os verbos. Com eles se montam as expressões mais difíceis, parecendo gerúndio, mas não sendo gerúndio, que só complica a leitura e a compreensão.

Vejamos:

“Na próxima vez eu darei o suporte ao caso.”. Por que não falamos logo que “da próxima vez suportarei o”?

Futuro e passado sofrem com verbos dobrados com efeito de um só. Pra quê, meu Deus? Os vilões são sempre o dar, o poder, o conseguir, e outros, todos eles ajudando a criar uma linguagem de subjetivos, mais prolixa, mais enfeitada, menos bonita. Tão mais forte usar o verbo! Por mais que exista frase sem ele, quase não é uma frase…

“Fogo!!”

Sim, uma mensagem foi passada, mas graças à nossa capacidade de pressupor uma situação, mas isso não quer necessariamente que uma frase tenha sido criada. Certo? Alguns discordarão, outros ficarão na dúvida, e talvez nem eu mesma concorde cem por cento com essa afirmação. Mas o que mais me intriga é que cismam em complicar.

“…para que possamos ter ideias…”, e porque não para que tenhamos ideias?

“…o desejo de que consigamos fazer melhor…”, ou que tal ter o desejo de que façamos melhor?

Bendito tempo verbal que nos incita a colocar algo desnecessário! O sentido, o xis da questão, não muda se aplicarmos o verbo direto! Então, mais uma vez eu pergunto: por quê raios? Não, o sentido não muda, pelo contrário: a neurolinguística agradece o fortalecimento da postura positivista do “eu farei”, do “eu dou conta”, do “eu me sinto capaz”… Psicologias à parte, somos negativistas por natureza, vemos o lado vazio do copo.

Por isso a muleta do verbo desnecessário.

** Publicado em 01/02/14 originalmente em Vida a Sete Chaves. Acesse outros posts clicando aqui **

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