Crônica “Com o samba, pelo samba, para o samba”, em Vida a Sete Chaves

Como já disse o saudoso Geraldo Filme, “…quem nunca viu o samba amanhecer, vai no Bixiga pra ver…”

Porque pra ver o samba, hoje, tem que ir atrás, fuçar por debaixo das cobertas, dos tapetes, atrás das portas, subir escadas pra olhar atrás dos muros da cidade e aí, sim!, a gente encontra o que se pode, sem medo, chamar de samba. O que a gente vê por aí, escancarado nas mídias, movendo multidões, e até mesmo guiando a massa, não é samba. Como sol de primavera, que não esquenta, nem esfria. Como carne de soja: que não é carne, nem soja.

O que se vê por aí é uma meleca sonorizada com batuque e óculos escuro. Não é samba.

O que se vê por aí são moedinhas gritando e chorando enlouquecidas por uma corrente de ouro maciço.

Uma pena.

E é uma pena porque toda a história se esvai e o povo paulista – que por natureza tem memória curta – perde sua essência, sua cultura e também seu futuro. Perde o futuro porque perde a referência, os ensinamentos deixam de ter valor pois o que vale mais é o dinheiro. Saber que tem gente apagando as raízes do samba em prol da vendagem de cedê, por status, por fama é extremamente desanimador.

Porque ver o carnaval hoje, pela tevê, não é, de fato, ver carnaval. É ver mídia manipuladora em ação, é pedir para ser vendado, é querer fingir que não se é povo, que tudo vai ficar bem, que está tudo bem. Ver desfile de carnaval pela tevê é quase como ir pra uma boate de striptease, é ter motivo para masturbação instantânea, é ser inundado pelo sexo sem nem ter pedido um vinho antes.

Mas quando desligo a telinha, saio na rua e vejo uma roda de samba relembrando os velhos mestres, exaltando os novos mestres e levando adiante o que o samba é por natureza, ou quando sinto o bumbo bater forte no desfile de rua, arrecadando gente pra folia, pulando  por pular, aí sim!, é estimulante. Sempre dá vontade de sorrir, de cantar aos quatro cantos o que é pagode pra valer, o que faz o coração pulsar, o que é a cultura do povo.

Pode ser no Bixiga, na Brasilândia, na Madalena, Santo Amaro ou no Parque São Lucas. samba se vê na palma da mão, na ponta do pé.

** Publicado originalmente em Vida a Sete Chaves.

Clique AQUI para ver outras crônicas. **

Anúncios