Crônica “Dia de Quê?”, em Vida a Sete Chaves

Ah, que maravilha!

Hoje é um dia muito especial, dia em que todos voltam seus olhos para um mesmo horizonte, em que o mundo inteiro comemora… comemora… bem, o mundo comemora, entrega flores, faz campanha de saúde, antiviolência mas nem sabe muito bem o quê, exatamente, comemora.

Dia da mulher, certo?

Tá, agora me diz: o que isso significa? Talvez algumas mulheres pensem que significa a conscientização do mundo no que se refere aos direitos da mulher. Outras quem sabe devem ter pensado que é a comemoração da conquista do respeito e do cuidado para conosco. E ainda deve haver quem tenha pensado na posição da mulher como independente, dona de si.

Pois eu questiono. E questiono todas elas.

Porque não acho que devamos ter um dia que nos segregue ainda mais, um dia que ressalte nossas diferenças em vez de focar no que temos de igual. Ao ver esses movimentos feministas, que se posicionam como autossuficientes, que rechaçam tudo o que foge dos seus princípios, que discrimina e generaliza os homens como seres opressores e maléficos, e só para dizer que somos iguais.

Oi? Desculpe, mas acho que não entendi: então é execrando o “lado oposto” que vamos conseguir igualdade? Pela lógica, assim conseguiremos apenas exaltar ainda mais as diferenças e pior!, aumentar ainda mais a “guerra dos sexos”. Porque querer igualdade não se trata apenas de igualar benefícios, mas de igualar obrigações e desvantagens, também.

Vejamos… Queremos salários iguais! Mas ninguém fala do tempo de trabalho, que não é o mesmo para homens e mulheres. E aquela que disser que a mulher não tem estrutura física para trabalhar mais cinco anos, blablabla, vai perder o moral comigo. Porque se somos iguais aos homens para ganharmos o mesmo valor de salário, precisamos ser tão iguais para trabalharmos durante o mesmo período (e para menos, de preferência!).

E se a mulher precisa de licença maternidade – seja ela de quatro ou seis meses -, porque não lutam para que os homens também tenham? Nunca vi nenhuma feminista alegando isso. Ou será que dar banho, trocar de fralda e levar ao pediatra é “coisa de mãe”? Não é aqui, talvez, que já iniciemos as novas gerações ao tão criticado machismo? Ou não é o pai tão responsável pelo seu filho como a mãe? Ou ele não “precisa” desse tempo com o bebê? Se mãe é “mãe”, pai é “pai”.

Porque se não aceitam “profissões específicas” de homem e de mulher, também não podem aceitar essas diferenças tão arcaicas, ou ainda que o corpo seja diferente, despreparado para X’s e Y’s, que historicamente não tem força… Se ao menos não existissem mulheres halterofilistas, ou lutadoras, ou estivadoras… Mas elas existem e felizmente estão aí contrariando todas as teorias de que não podem isso ou aquilo.

Quando exigimos por direitos iguais, precisamos ter a consciência de que deveres iguais virão em paralelo. E lutar por direitos iguais não é apenas olhar para o nosso umbigo, é querer que as condições gerais sejam niveladas, é exigir que os dois pontos da corda estejam no mesmo patamar, é olhar para o lado, ver que o outro está num degrau mais baixo e ajudá-lo a subir. Ou seja: se a condição de vida, de trabalho, de sociedade para o homem não desfruta das mesmas vantagens que a mulher, isso não é lutar por direitos iguais.

E que recaiam sobre mim as críticas que forem, mas a verdade continuará sendo a mesma: que a igualdade não existe enquanto cada um ainda pensar no seu próprio umbigo.

** Publicado originalmente em Vida a Sete Chaves.

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