Conto “As irmãs: Tudo seu”, em Coletivo Claraboia

Seu coração estava endurecido, nem mesmo percebera a própria mudança, não se reconhecia mais de outra forma e ali, parada na janela, não podia voltar atrás. Mas… voltar atrás? Também não sabia se essa era uma coisa capaz de fazer, tampouco entendia se a desejava de verdade. Suas lembranças apenas lhe diziam que tudo sempre fora assim: seu!, impiedosamente seu. Os olhos duvidavam, mas as mãos não se mexiam e ambas trabalhavam juntas, estáticas, para que nada mudasse do que está. As imagens da infância eram vastas, fortes e felizes, da família unida, festas do divino, sempre abastadas de mandioca, feijão e cachaça. Seu futuro, nem a cachaça ele vê mais. Não vê condenação, nem consequências: vê resultados, vê terras que inundam sua vista, inundam o redor de sua casa, cumpriu o que o pai prometera, agora era tudo seu, impiedosamente seu.

** Publicado originalmente em Coletivo Claraboia.

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