As três irmãs: O sino

ATI 3

A tristeza que lhe abatia o peito soava com a dureza do sino da igreja matriz. Dureza que ecoava fundo, também. Longe do coração, ouvia risadas de crianças; mas as lembranças daqueles que as riam estavam perdidas logo atrás dos pontinhos brilhantes que observava no céu. Reconhecia o vento que batia nos seus cabelos como sua parentela, era ele o único que a acompanhava – nem mesmo ele a acariciava mais. Antes – e ela nem mesmo sabia precisar quando havia sido esse “antes” – as ruas lhe aparentavam maiores, mais largas e bem mais interessantes. Tudo era tão… estranho. Não era de sua percepção que essa estranheza viesse de pessoas que, em princípio, admiravam seus cabelos finos, mas hoje temiam suas mãos grossas, sua voz seca. Seca de solidão, diziam; seca de amargura, comentavam; seca de secura, apontavam. Secura que só mesmo ela sentia na dor da saliva engolida, que só ela sentia pelo temor das cabeças baixas quando resolvia espiar a produção da farinha. Um cuspe na cara! Uma rasteira! Um toco na costela!, pensavam assim que lhes era permitido novamente erguer os olhos. Mal sabiam que tudo era recebido enquanto ela permanecia parada na janela.

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