Crônica “A parte que me cabe”, em Vida a Sete Chaves

Nunca soube começar uma conversa. Soltava uma frase clichê, um assunto sobre o tempo e logo as bocas se calavam. Pensava: “concorda com tudo, fala a mesma coisa com outras palavras e o papo vai longe”, mas isso nunca rendeu mais do que cinco minutos.

Comecei a ler corriqueiras, ver programas populares na tevê, falar sobre a vida de famosos, opinar superficialmente sobre as ações e escolhas de outros e descobri que essas coisas sem prumo, sem profundidade não diziam nada de importante – tampouco de mim. Havia mais lá fora que precisava entrar, havia mais lá dentro que deveria sair.

Observar sempre foi o meu forte e por isso decidi praticar ainda mais: optei pelo silêncio, pelos lugares nos cantos, nas laterias e ao fundo e assim angariar uma visão completa, não só com o que eu via, mas com o que era possível perceber, com o que ia além dos olhos. Tarefa difícil… necessariamente difícil.

Larguei de tudo o que fosse alheio à essência – à minha essência – e ao sentido que tudo tem em seu natural, busquei o completo, o cheio, o princípio de cada coisa, o todo. Notei pessoas que jamais havia notado, percebi sentimentos ricos de consideração.

Recebi, então, a vida. Recebi também a responsabilidade de levar aos outros a mesma experiência de observação.

Hoje escrevo e essa é a parte que me cabe.

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