Lit&Mus: Vôo de Juvenal

Se conselho fosse bom, bem capaz que eu tivesse montado uma central de distribuição. Sempre fui muito bom em avaliar situações, mas que não me mostrassem a ferida!, pois eu seria capaz ainda de dar uma cutucada, sem dó. Eu era uma pessoa que praticava a justiça em todos os momentos, ouvia imparcial cada lado da história. Por isso escolhi ser delegado.

Depois de um tempo descobri que delegado não era nada do que eu pensava; a realidade é que ele só manda no horário de entrada e saída dos policiais. Quando fiz estágio em delegacia do interior de São Paulo foi que aprendi como se faz justiça no Brasil.

Acompanhei o caso de um pedreiro bem de perto: convoquei familiares, testemunhas e participei dos interrogatórios para coleta de dados. Fiz tudo como imaginei que deveria ser e tinha acertado até então. O bicho pegou mesmo foi depois…

– O Juvenal? Ah, seu doutor, ele era moço muito bom. Trabalhava debaixo de sol, de chuva, com frio e com fome. Esse dia eu lembro sim, ele tinha saído pra trabalhar como fazia todo santo dia, pra botar comida na mesa das criança. Dava dó, porque levava arroz com feijão na marmita e quando dava um ovo cozido. Mas parecia que ele tava era se despedindo da gente. Me pegou de jeito no quarto logo cedo, deu abraço forte nas crianças e foi embora. É, ele andava meio triste mesmo, o senhor tem razão. Volta e meia os olho pro chão, o queixo que quase encostava no peito. Do portão de casa eu via a obra. As parede ainda não tava tudo de pé e eu conseguia contar os passos dele na escada pra chegar na sétima laje. Ele? Fazia o cimento, seu doutor. Voltava com a roupa dura até, dava desgosto pra lavar!, porque nem deixando de molho resolvia. Ele falava assim: “Deixa disso, mulher, que amanhã suja tudo de novo.”, mas eu não gostava de ver as roupa dele suja, os braço cinza. Nesse dia? Ai, seu moço, não gosto nem de lembrar… Peguei o danado chorando lá na obra. Que eu fui fazer lá? Fui levar a marmita que ele tinha esquecido. Quer dizer, eu só vi mesmo foi lágrima embotada na cara dele. Escutei o aviso do almoço bater quando tava quase no portão. Se eu vi? Vi sim. De longe vi ele sentando pra comer. Não, doutor! Ele largou a pinga faz muito tempo, nem lembro mais quando foi a última vez que ele botou um gole da mardita na boca. Quando ele trabalha, não bebe de jeito nenhum, eu mesma fico de olho. É mentira, viu?, se alguém falar pro senhor que ele bebeu… Ah sim, ele levantou no sinal de voltar, mas parece que o tropeçou num tijolo que não tava grudado ainda, misericórdia, doutor! O homem deu de perder o equilíbio, se estapeou no ar, caiu parecendo um passarinho de novo tentando voar e espatifou no meio da pista principal. Parou até o trânsito.

Este conto faz parte do projeto Literatura & Música.

“Construção”, de Chico Buarque.

Confira: https://www.youtube.com/watch?v=P7mHf-UCZp0 

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