Lit&Mus: Um rosto na multidão

Era domingo de carnaval.

As nossas mãos se cruzaram, se soltaram e eu nunca mais a vi. Foi assim que o que era doce se acabou, que seu cheiro se misturou aos cigarros de outras mulheres, seu corpo se embrenhou na multidão e confundi seus olhos com confetes. No ritmo da música vinha meu peito, que doía a cada batida do surdo. Tentei chamar, mas a maldita música me fazia mudo aos teus ouvidos; eu teria chamado seu nome, se o soubesse…, se a maldita música me permitisse. Ah, se todos os sons estivessem mudos e só a minha voz ecoasse chamando por você! Mas se a música estivesse desde sempre morta, também o nosso amor estaria morto, as nossas mãos jamais teriam se cruzado, também não teríamos nos amado por um segundo sequer.

Chorei e não foi por você, mas pelo desamor, pelo amor leve e puro que na folia se fez pó, virou lembrança, cicatriz. Chorei foi por um amor que jurava nunca sentir, que zombava daqueles que o sentiam, e que se foi.

Hoje você é uma história que eu conto, apenas uma história, e nos caminhos que tracei pela vida trago comigo a certeza de nunca a encontrar, porque não mais a procurei. Nossa jura se fantasiou em sonho, em carnaval, e lá ficou, naquele dia, durou um dia, um carnaval e só. Na festa colorida você se fez cinza e nem ao menos esperou pela quarta-feira, quando tudo chega ao fim, para renascer como inspiração na memória.

Ecoa ainda dentro do peito uma batida forte, escravizada pelo surdo, que me faz entender que a história que conto não passou de um domingo qualquer. Se a conto no violão, longe do amor, longe das folias, da multidão, longe daquela maldita música é porque sei que se o tamborim repinicar, o meu consolo só vem ao amanhecer.

Este conto faz parte do projeto Literatura & Música.

“Domingo de Carnaval”, de Zé Maria.

Confira: https://www.youtube.com/watch?v=801MQjNJvrg 

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