Lit&Mus: Dá licença de contar

…foi difícil, seu moço, de olhá tudo indo pro chão. E não é das tábua que tô falando, das tábua toda que um dia o suor escorreu pra recolher, pra botá em pé. Foi não. Foi só pelo suor, porque ele foi minhas lágrima quando trabalhei. Nós sofre prá alcançá alguma coisa na vida, que é sempre pouca, sabe?, mas é nossa e a gente sabemos por causa do suor. Eu fiquei foi é triste demais de ver que tudo se foi: as tábua, o suor, meu trabalho. Foi também minha alegria, meu futuro, moço. E de vê eu chorei as lágrima de tristeza que ainda tinha prá chorá, mas acabou, né? O compadre Joca disse que tava certo, que os dono vieram buscar o que era deles e que nós tava errado, ele não me deixou nem perguntar porquê tinham decidido voltá. Não tinha nada nosso, além das tábua e do sonho de ficá ali até quando Deus mandasse. Acho que Deus mandô… Porque é só deus que decide o quando e ele já tava sabendo que havia de sê hoje mesmo, não tinha nem o que fazê, só pegá nossas coisa, saí dali sem reclamá. Joca falou umas coisa bonita pra acalmá a gente, falou que o nosso tava guardado, que Deus tá vendo nossa luta. Será que Deus também tava vendo as máquina derrubá tudo o que a gente tinha construido? Mas o Joca não respondeu não, só ficô olhando as madeira caí, a poeira levantá nos olho da gente e embatumá as lágrima. Era nosso, não. Mas era tudo nosso, sim. A saudade vai ficar grande, moço, não vai embora tão logo. Eu, mais Mato Grosso e Joca vamo dá jeito na fome, na sede e no frio. O cobertô é Deus que dá, ele sabe o frio que vem.

Este conto faz parte do projeto Literatura & Música.

“Saudosa Maloca”, de Adoniran Barbosa.

Confira: https://www.youtube.com/watch?v=801MQjNJvrg 

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