Crônica “Adeus Ano Velho”, em Vida Sete Chaves

A cada ano que começa, uma mudança iminente aparece. Iminente, sim; mas claramente ilusória. Com 2015 não foi diferente. Talvez porque o ano passado passou e deixou rastros nada positivos, imaginou-se (ou será que fui apenas eu quem imaginou?) que mudanças boas eram inevitáveis.

Passamos por eleições e os seus resultados eram promissores para o levante de uma sociedade mais questionadora, menos passiva e mais perceptiva, sobretudo. Foi o momento mais tenso do ano, mais tenso ainda que o terceiro gol da Alemanha. E foi tenso justamente porque esperava-se que a copa do mundo tivesse acordado as pessoas para a politicagem vigente no país. Sonho meu…

O maior estado do país (financeiramente falando) teve ainda outros detalhes desagradáveis ao longo de 2014, como por exemplo a iminente falta d’água paulista – pela qual eu ouso me condoer por interesses próprios. Mas não. Mesmo não tendo água, mesmo com as tristes imagens da cantareira e relatos de pessoas há meses em racionamento enrustido em “falta de chuva”, nada mudou, as pessoas continuam aceitando o fato e assistindo às emissoras de tevê anunciarem o que já sabíamos.

Vimos atentados gratuitos acontecerem pelo mundo inteiro, assistimos de camarote a violência se espalhar e atingir crianças debaixo de nossas fuças e agora, neste “ano novo”, continuamos discutindo toscamente sobre de quem é a culpa ou ainda quem foi atrevido além da conta, em vez que questionar sobre liberdade, sobre repressão, sobre impunidade, abuso ou poder.

Triste é sentir que não se sente nada disso, que o povo só grita, mas não sabe o que diz, que as pessoas andam para frente sem saber para onde querem ir. Mas eu não.

Estão sambando na nossa cara, dá para sentir a ponta dos saltos altos goela abaixo e calando a boca de cada um por aqui. Mas eu não.

Eu sei fazer gestos com as mãos e corpo inteiros. Eu sei rebolar sem bambolê e desligar a tevê com a ponta do dedo do pé. Ninguém vai me obrigar a discutir sobre nenhum “grande irmão”, ninguém vai me impedir de dizer o que penso. Porque eu sou uma andorinha e vou fazer o verão que me cabe.

Um feliz ano realmente novo para mim, para você e para nós.

andorinha

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