Conto “As irmãs”, em Coletivo Claraboia

Tinha uma predileção especial pelas Três Marias.

Foram as primeiras que havia aprendido a reconhecer ao olhar para o céu, quer olhasse das colinas, quer olhasse do riacho. Todas as noites, buscava entre as nuvens o brilho das três irmãs, e era como se ela  também pudesse ser reconhecida, como se fosse esperada!, do mesmo jeito que esperava ansiosa pelos anoiteceres. Depositava nas irmãs a saudade que sentia das suas, que eram de carne e osso, daquelas que jamais veria novamente. Há anos haviam se separado, que a briga pelas terras da família havia vencido e despejado o carinho para fora de casa, escorrendo junto do sangue engrossado de farinha e feijão. Por terras úmidas – como lá diziam; por cana, mandioca e feijão. Feijão que hoje lhe descia seco de arrependimento, mais seco que o sol do meio dia, mais seco do que agora era a terra do mangue; mais seco ainda do que ficaram as suas entranhas, porque jamais sentiriam o gosto de uma nova vida pulsante, de uma vida que podia lhe reviver o amor que antes pertencia às irmãs. Seu sangue secara com a facada recebida da mais velha, ainda doía, porque nem as curandeirices de mãe Xica resolveram: não sabia trazer à vida o que morrera no peito.

Tudo o que lhe restava eram as estrelas, morada daquelas que se foram, morada dela que ainda ficara.

** Publicado originalmente em Coletivo Claraboia.

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