As três irmãs: Insossa

ATI4

Ela nunca quis entender porque sempre vivera sozinha. Mesmo quando ainda com os pais, as irmãs, ficava no canto, olhando tudo e todos. Em seu redor parecia existir uma redoma que afastava o parentes. “Menininha sem graça”, escutava das bocas alheias assim que saiam de perto. “A coitada vai empacar” era a frase predileta do pai, que a repetiam toda vez que a viam sentada no balanço. Seus ouvidos eram bons, captavam cada palavra, mas seu coração já era ressecado, piorava a cada verão, nunca fora regado nem mesmo pelas irmãs, a quem depositava todo amor que lhe era possível brotar no peito. A bem da verdade, ela nunca quis entender sua solidão por nunca tê-la percebido, sentia que a vida era assim mesmo, insossa, que não tinha jeito de ser diferente. Notava suas irmãs de calças dobradas na beira do mangue, bundas molhadas desde criança, secando depois no sol escaldante. E ela empoeirada da terra vermelha batida no chão, batida na cara, rachada no peito. Só no peito.

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