As três irmãs: O fim

ATI 8

De tudo, o que mais sentia falta era o cheiro, o ar que rodeava a cada um deles, a cada passo, e que agora tinha esquecido por inteiro, perdera o gosto das coisas, mas nada pior que perder os cheiros, não lembrava se era doce pelos cuidados da mãe, se era amargo da sofridez do pai, se era azedo do rol rachado na cabeça. Não tinha mais nenhuma lembrança do calor dos peitos secos de leite, de vida, de poeira, secos de qualquer ambição por chamego, secos de qualquer dedicação a nem mesma à filha que grudava na perna feito mato verde. E que hoje não gruda mais em nada. Apenas na janela. Estática, pedra de memórias secas de terra. Viúva de amor amor próprio, nem mesmo decide por viver, entrega o destino a ele mesmo, sem questionar, como nunca questionou. O que tem para hoje está longe de ser a água da garoa fina, essa não vê há mais de mês. Hoje o que lhe sucede é a morte, não a sua, mas a do mundo. O mundo que morre para ela jamais voltará, perdeu a razão porque perdeu sua maior espectadora. O mundo morre, mas ela fica, sozinha, sem nem mesmo lembrar o próprio nome.

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