Lit&Mus: Memórias de um Lavapés

Guarde a sandália dela que o samba sem ela não pode ficar.

O ponto puxado pela Madrinha recebia resposta da parceira no meio da roda. Negro que batia zabumba puxava o bumbo, que soava forte e marcava a certeza de que nunca calaria. O crepitar da fogueira tinha seu ritmo ditado pelo bater das palmas e Madrinha levantava poeira com as setes saias botando o cordão na rua pra desfilar. Delegado de polícia fitava imóvel da janela, não sabia se abobalhado ou cheio de ansiedade. As cores, as rendas, os chapéus: os verdadeiros donos da festa não lhe traziam, na verdade, senão brilho nos olhos.

Diga também pra ela que a escola sem ela não vai desfilar.

O cortejo partia madrugada afora; na frente, o lampião de gás iluminava os estandartes que estampados no negrume do céu guiavam a marchinha mais bonita do desfile, anunciada no coro que saia de dentro do peito, beirando o caminho do trilho do bonde. Boi gemendo, os pequenos ensinados pelos mais velhos e a moçada girando, semeando as esperanças de segurar a tradição. Todos sabiam que Madrinha queria ver seus netos levando adiante seus batuques, na raça e na força, como um dia nasceu e como nunca tivesse fim.

Diga que foi por ela, que por causa dela eu parei de sambar.

No terreiro, o menino observava inquieto, tremelicando sem nada de jeito as perninhas grossas pra lá e pra cá. Não entrava em roda de samba, o mestre era sabido e não deixava, era pra pegar de lição. Pra isso tinha que ser batizado na procissão de Pirapora, mas o danado não queria esperar. Correu por entre as pernadas, desviando dos lenços pra chegar na barra da Madrinha e pedir, com olhos rasos d’água, o ganzá. Achava que tinha força, o pobre, e a Madrinha também achou.

Foi a sorte. O festeiro, no meio de toda aquela multidão, não deixou o santo batizar o garoto. No chão de terra batida o pé preto não pisou; voltou azarado pro terreiro, chacoalhou ganzá, bateu zabumba como ninguém. Firmou seu ponto ali, cresceu pra honrar a bandeira, levar o samba no braço, no peito e no pé, mas não deu tempo, foi tarde que chegou… A poeira baixou e a saia da Madrinha parou de rodar. Em silêncio o batuque medrou do que estava por vir.

Diga que toda favela, chamando por ela se pôs a rezar.

A sandália, guardada num cantinho do barraco no largo do Glicério, não arrasta mais.

 

 

Este conto faz parte do projeto Literatura & Música.

“Guarde a sandália dela”, de Germano Mathias.

Confira: https://www.youtube.com/watch?v=U2bbodLOUBk 

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